quarta-feira, 20 de março de 2013

MARATONA CULTURAL





NOTA DE CANCELAMENTO DO ESPETÁCULO 
"DOIS AMORES E UM BICHO" NA 3a. MARATONA CULTURAL


A Cia Experimentus informa a tod@s que está se retirando da programação da 3a. Maratona Cultural de Florianópolis, evento no qual apresentaria o espetáculo “Dois Amores e um Bicho” no dia 24/03, decisão esta informada hoje à produção do evento. 

Quando inscrevemos nosso espetáculo em dezembro de 2012 haviam informações de que a terceira edição da Maratona seria realizada com recursos Lei Rouanet, e naquele momento entendemos que este cobriria seu valor integral, não havendo participação do Governo do Estado. No entanto, quando saiu a divulgação da programação no website do evento há algumas semanas, vimos veiculada no material de mídia o Governo do Estado como patrocinador e a Prefeitura Municipal de Florianópolis como co-realizadora, não havendo no site a logomarca da Lei Rouanet. 

E por que não participar de um evento custeado pelo Governo do Estado?

O descaso e a arbitrariedade com a qual a cultura catarinense vem sendo tratada pelo Governo do Estado tem desencadeado diversas manifestações de repúdio, a exemplo das ações do Fórum Catarina e do movimento Ocupa CIC, apenas para citar duas recentes, que no ano passado deram ampla visibilidade a diversas irregularidades ocorridas, tais como a aprovação de projetos que sequer passaram pelo Conselho Estadual de Cultura, este que legalmente deveria ser o responsável por tal processo, enquanto outros projetos, tais como o Prêmio Cruz e Souza, o Salão Victor Meirelles, o Prêmio Cinemateca Catarinense, e o Festival Catarinense de Teatro, projetos aprovados pelo Funcultural, não foram pagos pelo Governo do Estado. 

Na última semana, mais um destes absurdos veio à tona com o cancelamento do espetáculo “Kassandra”, que teve de ser retirado da programação da Maratona Cultural, por ter como espaço de apresentação o Bokarra Club. Segundo o jornalista Rafael Martini (da Coluna “Visor” / Diário Catarinense) a decisão teria vindo do governador, Sr. Raimundo Colombo, que determinou que o espaço de apresentação fosse retirado da programação por se tratar de casa de diversão adulta, e não havendo sentido em realizar a peça em outro espaço “moralmente aceitável” o grupo preferiu retirar-se do evento. 

Entendemos que esta ação específica desrespeita a curadoria realizada a partir da inscrição de trabalhos artísticos diversos feita em 2012 pelo website do evento, seleção esta que é um processo democrático rompido por uma ação que julgamos arbitrária e moralista. Mas esta ação é apenas a ponta do iceberg.

Mesmo reconhecendo a importância da Maratona Cultural, não concordamos que um evento artístico tenha de ser refém das deliberações do Governo do Estado, por correr riscos de sua não viabilização. Seja por moralismo ou por qualquer outro motivo, entendemos que não é direito do poder público decidir que tipo de arte pode ou não ser vista, e principalmente que tipo de projetos devem ou não ser pagos. Entendemos isto como um desrespeito aos processos legais instituídos para a seleção de projetos culturais a serem beneficiados com a rescisão de impostos destinada à cultura catarinense. 

Lamentamos pelo público que perderá mais um espetáculo da programação, contudo, como artistas e cidadãos, não podemos concordar com estes acontecimentos, e aqui registramos nosso repúdio retirando nosso trabalho da programação. 

Cia. Experimentus / Itajaí - SC

    sexta-feira, 2 de novembro de 2012

    Salve o tricolor Paulista!




    Imagina um ser humano. Quantas coisas se passam na cabeça dele. Ele era assim, igual. Seu jeito de fazer a barba era raro. Eu o imitava, sempre que podia. As coisas pequenas, as que ninguém via, eu consegui enxergar. Lia jornal e revista com um olho só. De poucas palavras, severo, nada carinhoso. Eu tinha raiva na infância. Achava que ele gostava mais da outra, minha Irmã. Foram muitos anos assim.
    De repente as coisas mudam.
    Em muitos momentos da sua vida andava resoluto, tentando manter a dignidade que estava encoberta, mas existente, pelos teores alcoólicos que foram seus maiores fantasmas. A fragilidade assumia um papel decisivo na sua conduta e ele seguia indefeso e triste.
    Esfregava a barriga e assobiava num gesto de desabafo. E fumava. Isso nunca me incomodou. A bebida sim. Essa eu sabia que seria sua perdição.
    Eita mundo velho sem porteira! Assim estamos nós todos, soltos! E ele não tinha freios. As decidas eram sempre ladeira a baixo. Pra subir, os passos eram muito difíceis.
    Mas eu amei. Comecei a amar tarde, talvez. Mas não tarde demais. Espero! Fui de mansinho, ganhando jeito e conquistando. Afinal, pra alguma coisa esse dom deve me servir. E assim foi, foi indo...de pouco, de leve. Pouco difícil, às vezes. Mas eu sei que ganhei a benção. Ele me olhou, me viu, me amou também. Hoje nós nos amamos. Ele existe aqui dentro de mim.
    Homenageio-o sempre que levo comigo os seus pertences. Eu tenho esse privilégio.
    Na capanga que ele guardava as coisas que ele mais gostava. E lá está ele, me olhando, com seu único olho. Ele me vê e eu o vejo. Canto o hino que é sempre em homenagem a ele. Canto pra que ele escute e veja que todos ali estão vendo o que está por ser visto. Salve, Salve o Tricolor paulista.


    domingo, 30 de setembro de 2012

    Epifania


    Guardado nos escombros que restaram das itinerantes noites aflitivas, dragadas das profundezas calcárias dos inabitados mundos submarinos, rasgadas e arrancadas do inconsciente puro e devastador. A cada dia surgia, através de pequenos olhares subversivos e imaginários, um novo modo de pensar a vida. Ela que ficou sempre trancada em seus armazéns a sete chaves, pensando ser quase imperecível e intocável. Idealizada como algo que jamais seria corrompida pela roda que gira, pela passagem do tempo, pela impermanência.
    Elle teorizava sobre a grande corrida das coisas que o cercava. Elle somente queria sentir o vento que já não era mais percebido pelas ondas de calor e frio que havia se tornado quase que rotina dos seus dias naquela cidade úmida e chuvosa.
    Certo dia acordou, e sentiu a brisa suave, morna e seca, e por instantes não sabia dizer e nem sentir quem ele era. Elle, Elle, Elle. Olhou no espelho e viu que seus cabelos  tinham caído e nem se dera conta dos quantos fios que já havia colhido do chão. Bateu continência, soltou o nó da gravata, desabotoou o primeiro botão da camisa, sentou na beira da porta e olhou lá fora.
    Estava sozinho como havia tempos que não ficava e isso o deixou feliz. Feliz por ter momentos de solidão.
    Agora Elle precisava mudar. A porta havia sido aberta e escapava de lá a sua imensa vida trancada, hermeticamente fechada para não ser contaminada e nem corroída pela ação do tempo, pelas intempéries e tormentas que poderiam danificar quaisquer das oportunidades presas e represadas naqueles longos anos.
    Então ele se esticou, respirou fundo e se deixou levar pelos pensamentos, sentindo a brisa que ainda batia suave, mas que agora ele já havia se acostumado e fazia parte daquela nova e diferente sensação que o acometia.
    Então Elle dormiu e sonhou!

    sábado, 18 de agosto de 2012

    191- Reflexões


    Esse é número de projetos inscritos na Lei Muncipal de incentivo à Cultura da cidade de Itajaí.
    Eram 10 as pessoas que estavam presentes na tarde de hoje no hotel Marambaia em reunião para discutir os rumos das Políticas Públicas Culturais da nossa cidade. Estas políticas que irão reger nossa Cultura nos os próximos 10 anos, compondo o Plano Municipal de Cultura que se alinhará ao Plano Nacional de Cultura da nossa nação.
    Bom. Um momento tão importante tanto para os gestores públicos, artistas e produtores da nossa cidade, e somente 10 pessoas. As mesmas, diga-se de passagem. As mesmas caras que encontramos TODAS as reuniões, excetuando alguns, que por motivos de trabalho não puderam comparecer.
    Bom, fica aí a pergunta de sempre. Onde estão estas outras 181 pessoas? Quais os reais interesses destes produtores culturais em relação aos rumos da nossa cultura? Será que somente se interessam quando seus projetos pessoais não são aprovados nos editais? Onde estão estes invisíveis seres que ressurgem das cinzas somente no momento de pegar o seu quinhão depois que, ALGUNS e BEM POUCOS, lutaram para que Leis, Editais, Convênios fossem redigidos, repensados e melhorados para que TODOS pudessem usufruir?
    Ah, mas isso cansa! Estamos desiludidos! Ou, ah, eu nem fiquei sabendo! Cansa sim. Eu mesma sei disso, pois estou bem cansada. E junto a mim, aquelas 9 pessoas da foto estão cansadas também. Cansadas porque, além de trabalharmos arduamente todos os dias e muitos fins de semanas, ainda encontramos tempo e fôlego para pensar no coletivo, lugar no qual estamos inseridos como seres sociais. Tô cansada sim. E sinto esse cansaço no corpo, na mente, mas principalmente na minha alma de artista que se nega a aceitar que tudo está perdido, como muitos dos colegas artistas pensam. E é por isso que eu ainda saio da minha casa, no único fim de semana que teria para descansar, e passo a tarde inteira junto a colegas leais e fiéis à Cultura da nossa cidade, para abrir espaços de discussões e traçar metas que possam dar suporte aos artistas que ainda não abriram seus olhos para aquilo que é do interesse deles mesmos.
    Isso também vale aos gestores públicos, que deveriam cumprir seus papéis aos quais se propuseram. Quando eu aceito um cargo público, seja lá qual ele for, eu devo honrar o dinheiro investido no salário que é pago pelos contribuintes, ou seja, pelo povo.
    Não dá mais pra pensar que estamos impunes, que nada nos afetará. A lei de causa e efeito, ação e reação vai se impor algum dia na sua vida. Se você coloca sua mão no fogo, vai se queimar. Essa é a lei!

                                        Foto: Valéria de Oliveira [completando os 10 participantes ]

    sábado, 28 de julho de 2012

    Ser Clandestino – Parte I



    O tempo grunhia nas janelas do quarto do hotel. E as mesmas coisas já não eram as mesmas coisas de ontem. Eu deslizava radiante entre os lençóis brancos e submergia a cada suspiro mais profundo e triste. Nada seria mesmo como antes. E, de tudo que possa ter sentido, nada, nada realmente fazia sentido. Eu queria mesmo era procurar o raio de sol que tinha nome próprio, e depois disso, aquecer meu corpo como no banho que acalenta sempre minhas horas mais terríveis do dia.
    Eu queria ir pra junto das especiarias do mercado publico e me esquecer nos aromas estrangeiros ao meu olfato. Mas tudo suplicava o meu retorno, e eu não mais queria as mesmas coisas. Eu já era diferente. Eu já estava diversa e na iminência de uma aceitação clandestina. Sentia vergonha, às vezes, chorava. Mas isso de nada iria importar. O choro era só mais uma consequência das horas de solidão que também de nada importava. O senhor sol, a dona lua e todos os pronomes e nomes adjetivados nada poderiam fazer par destilar as angustias do meu momento. E foi assim que me vi, atenta às súplicas do meu corpo que transgredia os limites do que me era acessível até o momento. E me fui forçada, como que com uma faca nas costas, a dizer sim a essa vida. Era ela que me dizia pra seguir adiante, que nada podia além de continuar caminhando, apesar dos novos sapatos.

    quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

    Dia de hoje!




    Um inverno se aproximou de mim hoje. Já havia me esquecido como era...como deveria fazer pra passar o frio, pra juntar as folhas, pra me aquecer. Queria a lareira acesa, o som tocando alto, a vida pulsando aqui dentro.
    Já havia me esquecido da dor que penetra nos ossos, na face, nas vontades mais urgentes e nas mais insignificantes. Aliás, no frio elas são iguais.
    Esse frio constante abaixo de um sol escaldante.
    Esse frio cortante

    sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

    sabores, aromas e ventos

    Sim. Aquele lugar era de muito tempo atrás. Lugar que ficou da minha memória mais profunda e antiga. Era pra lá que eu ia quando precisava me refugiar.
    Aonde vc iria se estivesse triste? Aonde vc iria se estivesse feliz? Lá.
    De lá eu via o imenso, o grande mundo, o grande mar. De lá eu via eu mesma dando voltas na minha solidão. E de lá eu via eu mesma na minha mais profunda solidão acompanhada.
    E da lá eu continuo me vendo, ainda como menina, esperando que a solidão se complete de sabores, aromas ventos. E eu insisto em preencher essa solidão que me faz gostar mais de mim.
    A menina que manchava os lençóis, as toalhas, as paredes. A menina que continua manchar a alma que não quer macular. Por mais que ela se embriague, se derreta, se consuma, se doa [do verbo doer], ela sempre terá ele pra lembrar.